quarta-feira, 18 de março de 2015

TRECHO DO LIVRO (Título ainda não autorizado a divulgar) Capítulo dos ciganos. Poeta homenageado: Garcia Lorca.

José, um jovem de 15 vindo do sertão baiano com a familia para morar em São Paulo, trabalha na Feira da Vila Bancária com carretos , viu as ciganas dançando e  resolveu fazer uma consulta nas cartas ciganas . Depois da consulta, a cigana faz a benzedura. O poeta Garcia Lorca aparece e trava-se um intenso diálogo entre José, a cigana e o poeta andaluz.


TRECHO DO LIVRO. Capítulo dos ciganos. Homenagem ao poeta espanhol Garcia Lorca.
 
 
 
-Nossa! Que inteligência espiritual pra um chavo, um moço da sua idade. Bom, sua consulta acabou. Que Santa Sara abra seus caminhos e Nossa Senhora da cabeça não permita que a sua seja atormenta-da por males que perturbem a tranquilidade da sua vida.
-Pídale que le lea una passage de la Biblia. O poeta andaluz fala e mostra a Biblia ao lado da mesa da consulta.
-Só uma última leitura, pode?
- O que mais você quer saber, chavo? A sorte já foi lançada. So lhe resta paciência  e esperar   aconte-cer.
-Lê uma passagem da Biblia pra mim. Abre e lê. Como minha minha mãe faz pra mim de vez em      quando.
- Sim. Pois não. Aqui temos: “ Vocês não sabem que de todos os que correm no estádio, apenas um   ganha o prêmio? Corram de tal modo que alcancem o prêmio. Todos os que competem nos jogos se   submetem a um treinamento rigoroso, para obter uma coroa que logo perece; mas nós o fazemos paraganhar uma coroa que dura para sempre. Sendo assim, não corro como quem corre sem alvo, e não     luto como quem esmurra o ar. Mas, esmurro o meu corpo e faço dele meu escravo, para que, depois  de ter pregado aos outros, eu mesmo não venha a ser reprovado. Corítios 9 25-28.
- Muito interessante. Eu sempre gostei de correr, desde pequeno. Os pés descalços pelas terras secas erachadas do sertão baiano. E descalço que nem aquele  homem enforcado do Tarot e corria feliz, parecia uma nuvem cheia de alívio chovendo sobre minha terra sofrida. Subia e descia morro, tomava      carreira de bode brabo, corria atrás do carro de bois que meu pai tocava, corria por dentro de casa      atrás de um amigo que por sua vez corria pelas paredes do casebre...nossa, a buena dicha me impres- sionou. Estou emocionado. Muito obrigado Leoni. Eu gostei muito.
- Eu também gostei muito de você.
- Quanto é?
- Eu troco minha consulta por 10 cruzeiros, mas, você é estudante e pode espalhar que esteve aqui.   Vou te dar 50% de desconto e espero que você me arranje mais clientes. Eu  posso fazer sua benzedu-ra. Quer?
- Quero sim.
-Então vamos lá fora, onde as forças do tempo e espaço são mais abundantes. Deixa eu trocar esta     água do copo.
-Muito obrigado.
Leoni deu o copo com água nova para José segurar e sairam da barraca. Os últimos raios do dia avermelhavam o céu de São Paulo. Uma bola incandescente brilhava por entre os prédios e casas , nos parcos espaços que ainda restavam para a rubra luz adentrar. Tudo em volta do astro rei tomava uma ver-melhidão só amenizada pelas nuvens e vapores escuros, tons de cinza e marron saidos das fuligens demilhares de chaminés e dos canos de descarga da grande metrópole. O barulho do caminhão pipa os  assutou por um segundo. Começa a lavagem da feira. José não tira os olhos do arco-iris que se forma cada vez que o operário  do carro pipa levanta a mangueira na direção do por do sol.
- O céu está lindo, mas,uma das coisas que sinto falta aqui em São Paulo é um céu estrelado. Lá no    sertão quando o sol se apaga, Deus acende as estrelas. José se queixou. 
-Para que serve uma estrela para quem não quer ver? Leoni pergunta e José se cala em reflexão.        Leoni acendeu três varetas de incenso, uma de citronela, outro de arruda e o terceiro de gengibre.
- A arruda afasta energias negativas, como inveja, maus fluidos em geral. O gengibre lhe confere      mais energia e te lembra de que você vencerá , vencendo o limite da fadiga.
- E a citronela? José pergunta.
- É pra afastar os mosquitos e acalmar a gente. A cigana sorriu e o sol deu ainda mais brilho ao seu    sorriso que já reluz em ouro. Leoni faz o sinal da cruz e começa a benzedura.
-Mi Devel opral, dick tule opré mande! Meu Deus que está no alto, olhe para mim aqui embaixo. 
Olha por este moço e abre seus caminhos para o sucesso e a prosperidade. Pense nos seus negócios.  Leoni pediu.
- Meus carretos aqui na feira? José pergunta humildemente.
- A mais bela fogueira começa com pequenos ramos. Fogo bonito começa com gravetos.
Pense nos seus sohos. Leoni continua sugerindo
-Meu pai diz que eu sonho demais. José desabafa.
-Sem lenha o fogo morre. Leoni rebate e pega três galhos de alecrim e começa a benzedura.
- É preciso ter em mente que a água nos benze, a lua nos abençoa, o fogo nos consagra, o ar nos liber-ta e a terra nos transforma. Só assim teremos os pés nos chão, os olhos no horizonte e a mente nas     estrelas. José, eu entrego sua vida nas mãos da nossa mãe amorosa, Santa Sara de Cali. Baxt hai sastimos tiri patragi! Desejo-lhe sorte e boa saude!Thie aves thiailô lom, manrô tai sunakai! Que sejas      abençoado com o sal, com o pão e com o ouro.
- Eu tenho fogo em minhas mãos! O poeta andaluz fala em português claro.
- Eita! Nem no momento da minha benzedura...
- Oh, minha Santa Sara! É você Lorca? Que honra poder vê-lo Antônio Federico del Sagrado            Corazón. Porquê que eu não te via antes? A cigana abriu o mais belo dos sorrisos.  
-Eu estava absorvendo suas intelectualidades, mais especificamente, a sua habilidade de falar idiomasEstava estudando o seu português.
- Dona Leoni, pode deixar pra terminar a benzedura outro dia. José sugere desanimado.
- Mas este momento é a sua bênção José. Estás diante de um poeta que dedicou sua vida as minorias, aos nossos bravos ancestrais que resistiram as piores perseguições e bravamente trouxeram nossa cul-tura até os dias de hoje. Leoni exulta com a aparição do poeta.
-Mira, amigo! Como te dijo , tenho o fogo em minhas mãos. Eu o entendo e trabalho com ele perfei-  tamente, mas não posso falar dele sem literatura. Você também tem este fogo . Só usará um outro ins-trumento para realizar sua justificação e este fogo mostrará para que veio.
- É, olhando por este ângulo...sim...eu estou considerando este momento uma benção. Me dá uma      vontade de ver o tempo passar mais rápido. Dona Leoni, muito obrigado pela benzedura e pelas pre- visões. Seu Frederico, o senhor muito obrigado também...no começo eu fiquei meio cismado com suapresença. Mas, o senhor é uma coisa muito interessante. Eu só estava assustado, seu poeta.
- Não vamos perder este por do sol urbano. A poesia é algo que anda pelas ruas. Que se move, que passa ao nosso lado. Todas as coisas têm o seu mistério e a poesia é o mistério que contém todas as coisas. Se passamos junto de um homem, se olhamos uma mulher, se adivinhamos a marcha oblíqua de um cão, em cada um desses objetos humanos está a poesia.Por isso não concebo a poesia como abstração, mas sim como uma coisa real , existente, que passou junto de mim. Todas as pessoas dos meus poemas existiram.
- Ah, poeta dos ciganos! Eu gostaria de me abstrair tanto quanto você. Parece que quando a gente te ouve, ou lê, o mundo se estica e ganha uma nova cor...suas palavras são como um espanador limpando a poeira das coisas  do mundo. Posso olhar para o céu agora  e não turvar o meu pensamento junto com a fumaça suja das chaminés. Sei que a beleza está intacta por trás desta poeira. Leoni faz a tarde brilhar mais ainda com seus olhos de vagalume e sorriso de ouro lavado.
- O principal é encontrar a chave da poesia. Quando se está mais tranquilo, então, zás, se abre a chave e o poema aparece com sua forma brilhante. Como vocês , o por do sol, o passar dos segundos, o nosso parar para senti-los vez ou outra.
-O sinhô é muito conhecido aqui no Brasil? Nunca me falaram do poeta. Além do caso dos abacates com água de coco o sinhô se lembra de mais aventuras por aqui? José pergunta.
-Eu me lembro que ergueram um monumento em minha homenagem na Praça das Guianas , nos Jardins. E eu estava lá, sozinho. Ninguem me viu ou ouviu declamar meus versos, embora alguns tenham sentido arrepios inexplicáveis, como o poeta amigo Pablo Neruda que veio para a inauguração. Isso foi no dia 1* de Outubro de 1968.
- ô  pêga! O ano que eu nasci.Onde encontrar sua poesia? José pergunta.
- A poesia não tem limites. Pode nos esperar sentada na soleira da porta, nas madrugadas frias quando se volta com os pés cansados e a gola do casaco levantada. Pode estar nos esperando na água de uma fonte, trepada na flor de uma oliveira, posta para secar no pano branco estendido no terraço da casa.
- Porque o poeta ainda anda por aqui?
-Estamos num lago asfixiante de vulgaridade e sobre ele quero que minha caravela fantástica vá até o templo do magnífico com as velas infladas de neve e de sol. Eu sou como uma ilusão antiga feita carne e ainda que meu horizonte se perca em crepúsculos formidáveis de enamoramentos, tenho uma corrente, como Prometeu e me custa muito trabalho arrastá-la.
- Achei isso bonito, portanto entendi. Como fessora Jussara ensinou.
Alguns dos ciganos continuam tocando e cantando com a mesma energia de quando chegaram, embora visivelmente cansados. Enquanto esperam por Leoni , os ciganos vão desarmando as barracas de consultas espirituais e a das jóias. Carregam cuidadosamente todas as coisas para as caminhonetes. A mesma rotina cansativa, porém sempre em busca de uma alegria qualquer. José, Leoni e Federico dedicam aqueles minutos restantes do dia à contemplação da poesia latente em tudo seguindo as orientações do poeta andaluz. A música tem um magnetismo irresistível que reune todas as coisas e seres em torno dela e como se fora uma nave teletransportadora leva seus passageiros em viagens na velocidade da luz.
- A voz de Rúbio é tão forte e cheia de alma. Só podia ser meu sobrinho mesmo. Nosso avô era um cantor de multidões em Granada.
-Eu adoro essa música. José tenta cantarolar, mas é em espanhol.
-É uma banda francesa chamada Gypsy Kings. Lançaram um álbum recentemente na Europa. Já ouvi tocando nas rádios daqui também.
- Sim...eu já ouvi também...Un amor... José tenta acompanhar  timidamente desafinado. Rúbio solta o vozeirão que toma conta do largo da baianada. As cordas da guitarra cigana choram, gritam, estão tão vivas quanto o coração do cantor.
- “Un amor...Un amor viviiiiio...Llorando y me deciiiaaaa..Las palabras de dio
Llorando por tii-iii- iii o  Es con amor. Ey para ja vivir A cunta ti, Me en amore yo de ti, Y sin tus besos yo no puedo Vivir y recordar...
- A guitrarra faz soluçar os sonhos. O soluço das almas perdidas foge por sua boca redonda. E, assim como a tarântula, tece uma grande estrela para caçar suspiros que boiam no seu negro abismo de madeira. O poeta andaluz parecia sublimado ao som da música dos ciganos.
- Nossa, que lindo Federico! Leoni elogia exultante. José não perde um sorriso da cigana, acompanha tudo , como o ferro acompanha o imã.
- Dona Leoni, com todo respeito. Eu não sei o que é mais bonito, o por do sol de São Paulo ou o rastro de ouro que a sinhora deixa no ar quando sorri. José revela empolgado.
- Acho que uma dentada de ouro na cara de um também deve ser muito bonito. A voz de Teodoro ressoou ameaçadora por trás de Leoni e José que se abstrairam com o por do sol e com os eflúvios da companhia do ilustre poeta andaluz Antônio Federico Del Sagrado Corazón Garcia Lorca.
- Eu disse com todo respeito, seu Teodoro. José arregalou os olhos com medo ao ver o cabo da faca de prata que Teodoro fez questão de tocar enquanto falava.
- Teodoro, além dele ser apenas um menino humilde, ele é muito educado e respeitador. Leoni tenta acalmar o ciúme de Teodoro.
- Kastar thi aju kerás kotçar ankrel. De onde não se espera é que sai.Gadjê gadjensa, rom romensa. Gadjô com Gadjô. Cigano com ciganos. Teodoro fala com veemência e traduz a mensagem para que seja bem claro para José.
- Eu só admirei a cigana. Dona Leoni tem um sorriso bonito e o sinhô também. Eu admiro os ciganos.José tenta amenizar.
-Beleza não se come com colher e não há diversão sem os ciganos. Eu espero que a benzedura do Gadjo já tenha acabado. Só falta você pegar suas coisas e colocar na caminhonete. Teodoro apressa Leoni.
-Já sim, terminei.
- Diga-lhe que estamos los três acá. Que hombre celoso. Ciumento! Pero, ciumes eu entendo.Sou um grande romântico e este é o meu maior orgulho. Num século de zepelins e de mortes estúpidas, soluço diante do meu piano sonhando na bruma Haendeliana e faço versos muito pessoais cantando tanto para Cristo quanto para Buda, Maomé ou Pan. Por lira tenho meu piano e em vez de tinta, suor de desejo, pólen amarelo da minha açucena interior e meu grande amor.
-Oh, poeta Que honra tê-lo aqui conosco.
José e Leoni se preparem, vai haver uma morte hoje. Como disse, este é um século de zepelins e mortes estúpidas.Mantenham a calma , mas, o sangue de um inocente correrá junto com as águas hoje ainda. Calma, muita calma.O poeta dispara na intenção de ser ouvido também por Teodoro, mas ele não nota a sua presença.
-Então vamos embora. Teodoro não esconde o mau humor. José e Leoni arregalam os olhos diante da previsão do poeta.
-Miro prala foi esfaqueado, Deram uma facada em Tarin na feira. Miro prala, meu irmão precisa de ajuda. Corre, corre Teodoro. Gilliard, o irmão mais novo de Tarin, desesperado, aborda o grupo.
- O quê? Onde está Tarin Leoni? Teodoro pergunta nervoso e pronto para o que der e vier.
-Eu emprestei a minha Enterprise para ele. Ele me disse que iria pegar duas sacas de feijão que ele trocou por um relógio.José informa nervoso.
-Eu vou atrás dele agora. Vamos Gilliard, rumbora.
-Eu também vou. José sai correndo atrás deles. Em menos de três minutos a feira vira um pandemônio. Panos coloridos, botas de couro levantando poeira e lama, escorregos em cascas de bananas, empurrões, gritos de vingança, choro alto e pragas invadem o espaço sonoro. Ao chegarem do outro lado da feira, uma multidão em torno de um corpo coberto com uma bandeira cigana manchada pelo sangue derramado. Se abre espaço para o bando que chega aos gritos e pragas empurrando uns e outros. Tarin está com o braço sangrando e segura uma bela pipa colorida enquanto chora copiosamente pelo homem que foi esfaqueado.
-Tarin, meu filho! Você está bem? O que aconteceu? Quem fez isso? Eu vou matar quem fez isso.Teodoro rasga a camisa branca ensanguentada e tenta limpar o ferimento no braço e estancar o sangue no braço de Tarin.
-Seu Benjamin, pai. Ele morreu tentando me salvar...passou na minha frente e levou a facada. Akana mukav tut le Devlesa. Eu te deixo com Deus. Tarin abriu um berreiro de choro tão sentido que comoveu a todos.
- Tarin, meu filho, o que houve? Ai Ai Ai Meu Deus! O que fizeram com meu filho? Leoni se desespera.
- Como foi isso gente, alguém viu o que aconteceu?
- Porque a bandeira cigana está sobre o corpo?
- Quem matou seu Benjamin?
As perguntas aumentavam o rebuliço em torno do corpo caido na poça de sangue, coberto pelas belas cores da bandeira cigana.
- Eu corri pra pegar a pipa que veio voando lá do morro do Tiro ao Pombo. A pipa caiu no teto da barraca de seu Benjamin e eu fui pegar pra mim, não tinha dono. Tarin tentava contar entre choro e soluços. Um dos ciganos, um senhor conhecido como Argeu, o grande Kaku, tido como mago, feiticeiro, um líder espiritual do bando, se aproximou de Tarin, olhou fixamente no rosto dele e disse:
-Posso ver tudo que aconteceu. Tarin, se acalme. Não precisa contar mais. Argeu levantou-se e falou para o grupo a sua volta:
- Quem se interessar em saber da história, eu posso olhar fixamente no fundo dos seus olhos e terão em suas mentes toda a cena que ele viveu. Leva o menino pro hospital Teodoro. O corte dele foi superficial, mas ele precisa se acalmar.
- Ô seu Benjamin, me perdoe, amigo. Eu apronto com o sinhô, porque eu gosto de tí. Eu não mexo com quem não gosto, oh Deus! Tchumidau thio ilo! Beijo no seu coração.Tarin desabafa.
- Ele sabe disso amigo. Eu também sei que você é boa pessoa. José tenta consolar o amigo.
-Olha pra enterprise, toda suja de sangue. Os chifres, o carro de boi que  eu pintei de urucun. Eu vou limpar a Enterprise. Ô meu Deus, seu Benjamin morreu pra me defender ,amigo. Tarin recebe o abraço solidário de José.
-Nem se preocupe, vai, vai no hospital com seu pai. Eu cuido do resto. José o tranquiliza.
-Vumbora, Tarin, vamos meu filho, eu te ajudo. Leoni abraça o filho e sai com alguns ciganos para a caminhonete.
- Ele não me disse que vocês são os pais deles. José comenta.
- Nós não costumamos falar muito de nossas vidas.  Vumbora meu filho. Ai, minha Santa Sara, bem que o poeta andaluz me avisou. Pobre homem.
- Eu vou ficar e vou descobrir o desgraçado que fez isso com meu filho e o seu Benjamin. Teodoro jurou pelo punhal.
-Quem quiser saber como ocorreu o incidente, junte se à este grupo aqui na minha frente. Depois da experiência, aceito uns trocados, se for generoso ou de coração. E espero que contem aos amigos do que sou capaz. Faço consultas de Tarot e desmancho magias negras. Só trabalho em mesa branca. Se alguém me pedir para fazer maldades, eu mostro o brilho da meu punhal de prata e deixo quem fez o mal pedido  cego por 5 minutos para aprender a valorizar a luz. Alguém se interessa em ver a história?
- Eu quero.
- Eu também.
- Deus é pai. Isso é feitiçaria. Coisa do demo. Um senhor no meio do povo gritou.
-Bibaxt  prejeal the nani yov avel!  Azares e má sorte afastem-se e não voltem mais! Argeu mostrou o brilho do punhal de prata e o senhor saiu correndo. Argeu iluminou a área com um sorriso e fitou dentro dos olhos e no meio da testa de cada um dos presentes em volta dele.
-Fechem os olhos que terão uma visão mais nítida. Santa Sara Kali que converteu os ciganos ao Cristianismo, abre nosso campo de visão para que tenhamos uma perfeita vidência, permita que possamos ver o que  ocorreu nesta barraca há alguns minutos, tão claro quanto o fogo de vossa sabedoria.Fechem os olhos, terão a revelação desejada, em nome da Santa Sara, amiga e protetora dos ciganos!
Uma luz azulada desceu sobre a roda formada ao lado do corpo de Seu Benjamin. A barraca de seu Benjamin exalava cheiros típicos de frutas frescas. Uns três clientes esperavam em volta do balcão. Tudo parecia uma tela de cinema no ar, sobre a cabeça dos curiosos. A cena toma forma e ninguém consegue mais desviar o foco da visão.
- O espaço, a fronteira final! Dá licença! A Enterprise pede passagem. Tarin gritava aos passantes.
- Já vem me atentar, perturbado? E o que é que você tá fazendo com o carreto do José? Os chifres dele agora são vermelhos, é? Tá um corno mais alegre. Hahaha! Olha aqui suas goiabas e o troco, freguesa.
- Obrigada. Um bom dia Seu Benjamin.
- E essa bandeira cigana ai? Não me diga que José agora entrou na tribo? Seu Benjamin pergunta.
- Ele me emprestou o carrundro. Troquei um sarrato em duas sacas de frejoli. Já vendi quase tudo aqui na feira mesmo. E ja fiz o triplo do valor do sarrato.
- Que diaxo é sarrato, moleque?
-Relógio, Gadjo! Relógio.
- Pode escolher suas laranjas ai freguesa. É Cinco por um. Essa bandeira de vocês é bem bonita. Tem algum significado?
- Claro. O azul representa a liberdade. O verde, a natureza, o chão que a gente pisa e a roda vermelha é a roda da carroça que a gente viaja pelo mundo. Tarin explica.
- Carroça ? É assim que vocês chamam essas caminhonetes de luxo de vocês? Eu gostei do significado.  Eu gosto dos Gypsy Kings, música sofrida e alegre ao mesmo tempo.Seu Benjamin se entusiasma.
- O senhor não disse que Ciganos é uma raça maldita antes do menino chegar, Seu Benjamin? Uma das fregeuesas pergunta.
- Eu? Eu? Eu estava comentando um caso isolado. Seu Benjamin Justifica.
- Olha, uma pipa! Vermelha, azul e verde. Tá caindo pra cá, vou pegar.
- Desce daí, empestiado! Sai da minha barraca, vai quebrar tudo, moleque. Desce daí, ja! Me desculpa ai freguesa...ta vendo o que eu disse? São atentados demais. Dá licensa aqui. Sai dai agora, Tarin. Ô, seu Teodoro!
-Já peguei. Já desci, peixe vermelho dos infernos.
-Eu já te disse pra não me chamar deste nome. Na próxima vai ter, hein?
- Vou contar pro meu pai. Pai, ô pai!
- Não precisa. Coisa feia.Fofoqueiro. Leva essa pipa daqui e toma uma manga antes que você me roube.
-Obrigado. Valeu peixe vermelho.
-Filho da mãe. Seu Benjamin pegou a toalha molhada que ele costumava dar umas “cipoadas” em Tarin, rodou no ar e golpeou as costas de Tarin que saiu fingindo dor e dando risadas.
- Ô boca de lata dourada, larga a pipa! Um rapaz de uns 18 anos se aproximou de Tarin com ar ameaçador.
- Eu que achei. É minha.
- Vai largar por bem ou por mal? O rapaz mostrou uma faca que trazia na cintura.
- Eu não tenho medo de Gadjos. Vem tomar seu fi da peste.
- Ah é assim? Valentinho ne? Vou sangrar seu pescoço e ainda vou arrancar esses dentes pra fazer um cordão de ouro pra mim. O rapaz avançou com a faca em punho. Tarin Grudou na pipa e se esquivou do primeiro golpe, mas não fugiu, continuou parado e olhando o rapaz com coragem.
-Ta querendo brincar, ne? Ameaçou e partiu mais uma vez. Tarin dá voltas em torno da Enterprise e não solta a pipa por nada.
-Seu Benjamin, acode ali que o rapaz ta com uma faca cercando o ciganinho. Uma das freguesas avisa.
- O quê? Seu Benjamin, abre a barraca e vai em direção à briga.
- Deixa ele em paz. Larga essa faca, rapaz. Vou chamar a polícia.
- Ai, ai, meu braço. O rapaz acerta o braço de Tarin superficialmente. Seu Benjamin, pega a toalha molhada e dá uma “cipoada” no rosto do rapaz.
- Filho da puta! O rapaz enfia a faca com força na barriga de seu Benjamin que cai por cima da Enterprise , rola no chão gemendo e deixa um rastro que tinge o carreto e o chão da feira. A poça de sangue aumenta. Tarin grita por socorro e amaldiçoa o rapaz que foge em direção ao morro do Tiro ao Pombo.
- Meu pral, acorda, seu Benjamin, ô Devlesa! Santa Sara dos ciganos. Pai, pai, ajuda seu Benjamin. Kak camena tute, prala! Como te amamos, irmão! Desgraçado, assassino! Desgraçado! Tarin chora e cobre o corpo desfalecido de Seu Benjamin com a bandeira dos ciganos.
O povo em volta do Kaku, o mago cigano, se impressiona e alguns começam a chorar emocionados com o que viram. A luz azul esfumaçada se dissipa aos poucos e some no ar.
-Alguém conseguiu ver bem a cara do meliante? A polícia logo chega pra investigar e um dos oficiais  pergunta.
- Eu vi a cara do sujeito.
- Mas, do que adiantará? Digo a polícia que o vi através de um kaku cigano? O outro pondera.
- Eu vou encontrar este desgraçado. Teodoro parece ter faiscas saindo dos olhos.
- Acho melhor não...ele não está mais lá no Tiro ao Pombo. Vejo-o pegando um ônibus. Já está bem longe agora. Argeu, o Kaku, revela.
-Pobre Gadjo . Temos que avisar a familia. Morreu defendendo meu filho. Vamos pagar todas as despesas funerárias. Teodoro promete em voz alta.
A polícia chega e a multidão em torno do corpo aumenta.
-Ele era cigano? Pergunta um curioso.
- Agora é. Morreu por um de nós. Salvou meu filho da morte. Um grande homem. Lágrimas enchem o rosto bronzeado de Teodoro.
O poeta andaluz, Federico del Sagrado Corazón de Jesus Garcia Lorca chega ao local do crime e cumprimenta o Kaku Argeu.
- Optchá! Federico cumprimenta o Kaku.
-Optchà!
- Quem sois? Argeu pergunta.
- Federico Del Sagrado Corazón de Jesus Garcia Lorca, ao seu dispor! Mucho Gusto!
- Mucho Gusto! Ora, ora. O poeta de los gitanos. A que devo a honra?
- Gostaria de prestar uma última homenagem à este bravo cigano de coração, agora, um dos nossos. Ele não verá nem ouvirá nada. Ainda está em transição entre os mundos. Mas, assim que ele for reanimado no éter, receberá nossos eflúvios .
-Sim, como não? O que pretendes fazer?
- Uma fogueira. Vamos queimar alguns pertences dele.Enquanto eu recito, gostaria que você desse voz humana aos meus versos e os músicos toquem uma bela canção. Pede Federico, o cigano andaluz.
-Pois não, com muita honra, Cancionero Gitano! Guimi, guimi! Música, gitanos. Vamos prestar uma última homenagem à este cigano de coração. Um bravo espírito agora. Que Santa Sara lhe ilumine o caminho até a luz de Nosso Senhor Jesus Cristo. Argeu inicia os trabalhos.
 A fogueira rapidamente encheu o largo de luz e calor, a multidão aumenta, a poça de sangue em torno do cadáver não tinha mais como crescer. A bandeira cigana se encharcou de vermelho. Nos olhos dos ciganos uma dor visivel por entre as lágrimas. O som das violas parecia chorar também.
- Fossem ciganos, a levantar poeira, a misturar nas patas, terras de outras terras, ares de outras matas. Eu, bandoleiro, no meu cavalo alado, na mão direita um fado, jogando sementes nos campos da mente...e se falasses magia, sonho e fantasia...e se falasses encanto, quebranto e condão...Não te enganarias, não te enganarias, não te enganarias, não! Eu bandoleiro...
- E aí Bahia? Que porra foi essa, mano? Você sumiu o dia todo. Eu soube do crime, só pude vir agora. Reinaldo chega e procura ajudar José na limpeza da Enterprise.
- Nossa que tristeza. Este é meu primeiro dia na feira e parece que vivi sete anos em sete horas. Tenho muito o que contar ao meu pai hoje. José comenta enquanto limpa o sangue da Enterprise . Federico recita seus poemas em homenagem à Benjamin e o Kaku Argeu repete para todos os ouvintes.. José é um dos poucos que consegue ouvir aos dois e mistura suas lágrimas com álcool na flanela.
- Porque ja morrestes para sempre, como todos os mortos da terra, como todos os mortos esquecidos em um monte de cães apagados. Ninguém te reconhece. Não. Mas eu te louvo. Eu canto desde já teu perfil e tua graça. A madurez insigne de teu conhecimento. Tua apetência de morte e o gosto de sua boca. A tristeza que teve tua valente alegria.
José se perdeu em pensamentos orquestrados pelas chispas da fogueira, as guitarras ciganas, o canto e os gritos carregados de emoção. A polícia chega para fazer a ocorrência, o carro pipa começa a lavagem do sangreiro. Os policiais interrogam testemunhas que se recusam a dar informaçoes, um deles se aproximou do poeta andaluz e pediu um depoimento do ocorrido. Federico contou sob a sua ótica.
- Eram seis horas da tarde em ponto. Um menino trouxe o lençol branco, às seis horas da tarde. Um cesto de cal já prevenida.Às seis horas da tarde. O mais era morte e apenas morte. Às seis horas da tarde. O vento arrebatou os algodões. Às seis horas da tarde. E o óxido semeou cristal e níquel. Às seis horas da tarde. Já pelejam a pomba e o leopardo. Às seis horas da tarde. E uma coxa por um chifre destruída. Às seis horas da tarde.Os sons ja começaram do bordão. Às seis horas da tarde.As campanas de arsênio e a fumaça. Às seis horas da tarde. Pelas esquinas grupos de silêncio. Às seis horas da tarde. E quando de iodo se cobriu a praça, a morte botou ovos na ferida. Às seis em ponto da tarde. Ai que terríveis seis horas da tarde! Eram as seis em todos os relógios! Eram seis horas da tarde em sombras. Ai que terríveis seis horas da tarde.
- Inspetor Prazeres, com tanto serviço pra fazer e o senhor aí, escrevendo poesias? Pergunta o tenente Galvão .
- Eu estou pegando o depoimento deste senhor que testemunhou o crime. Não sou homem de brincar em serviço. Responde o inspetor Prazeres.
 - Qual senhor, inspetor? Isso não é hora para brincadeiras. Tenha paciência . Deixa eu ver isso aqui. Bah Tchê! Isto é poesia. Poema dos bons, Federico Del Sagrado Corazón de Jesus Garcia Lorca. Sou fã. Só mudou o horário. No poema original tudo acontece às cinco horas da tarde. Se o senhor precisa de férias, eu entendo. Mas, sou profissional e exijo que o senhor tenha a mesma postura.
- Mas, este senhor com sotaque espanhol me garantiu que viu tudo.
- Que senhor? Agora além de bobo você acha que sou cego. Eu vou fazer de conta que não ouví isso. Mas, o senhor está em observaçao, inspetor Prazeres. Voltemos ao trabalho.
- José, José! Você está bem meu filho? A notícia já saiu no SP tv. Me disseram que o menino estava com um carreto no estilo da nave Enterprise. Meu Deus do céu, como o povo distorce as notícias. Antônio abraça o filho e percebe que nem tirou o avental quando saiu desesperado da cozinha do Bar do Alemão.
-Não pai, foi o Tarin. Aquele cigano que a gente conheceu na barraca do Seu Benjamin, coitado. Ele pediu meu carreto emprestado enquanto eu fui consultar a buena dicha. José explica.
- A gente te avisou para ficar longe dos ciganos...E onde está Seu Benjamin? A barraca ainda está aberta.
- Ele morreu, pai. Esse corpo embaixo da bandeira cigana é dele.
- Oxi! Eu pensei que fosse um dos ciganos. Oh, vida! Que merda. Como foi isso?
- Se o senhor quiser, eu posso fazê-lo ver toda a cena aparecer em sua tela mental. Basta se concentrar. Quer? O cigano Argeu oferece.
- Não, não. Muito obrigado. O José vai me contar tudo. Não se preocupe. Pobre Benjamin. Me dava frutas pra levar pra casa quase todos os dias. Descanse em paz. Antônio abraça José e respira aliviado.
O poeta andaluz mira José nos olhos e oferece um lenço. José tenta pegar e nada, não existe lenço.
-Sinta suas lágrimas enxugadas pela minha compaixão.Se a morte é a morte,que será dos poetas e das coisas adormecidas que já ninguém delas se recorda?
Oh! sol das esperanças! Água clara! Lua nova! Coração dos meninos! Almas rudes das pedras! Hoje sinto no coração um vago tremor de estrelas e todas as coisas são tão brancas como minha pena. Se a esperança se apaga e a Babel começa, que tocha iluminará os caminhos da Terra? Se o azul da pipa é um sonho,que será da inocência? Que será do coração se o Amor não tem flechas ? Se a morte é a morte, que será dos poetas e das coisas adormecidas que já ninguém delas se recorda?
- Meu filho, eu estou falando. Em que mundo você está? Tem que ficar mais ativo, rapaz. Isso aqui é São Paulo, entende? Não estamos na caatinga e você não está dando bom dia aos bodes. Acorda rapaz. Eu fico preocupado com essa sua mania. Sua mãe tá querendo te levar em um pastor que diz afastar as coisas ruins. Eu tô quase concordando, apesar de não dar muita bola pra essas besteiras.
- Desculpe, pai. Eu estava ouvindo um poema do seu Frederico.
-De quem? Ai ai ai. Piorou. Vumbora pra casa.







domingo, 2 de fevereiro de 2014

         RESSURREIÇÃO

O gás sempre esteve lá, não avisa onde,
mas escapa quando por um acidente
descobre-se que até alma tem dentes,
umas à mostra e outros a alma esconde.

Assim como o condado está para o conde,
o mundo está para os muitos clarividentes;
Os que constroem o dia com o que sente
e na nova era não perdem o novo bonde.

A técnica ensina o próprio gás à combustar,
linguagem universal ,explosão supernova
de estrela à étoile to el cielo of superstar.

No terreno onde plantamos , fruto é prova.
Pensamentos são colocado neste altar.
A imaginária projeção do além da cova.

Sérgio Brandão, 02.02.14.

sábado, 4 de janeiro de 2014

SORRIAM! ESTAMOS FILMANDO.

“Acredito que o olhar modifica o ambiente observado, seja ele interno ou externo. Há força nos olhos e como tudo no mundo é dual, olhos positivos e olhos negativos. Deixo que meu anjo tome conta dos olhares negativos e procuro filtrar os olhares externos carregados de rajadas de luz que invadem o restinho de trevas persistentes em prender a claridade; para tanto, oro, leio muitas coisas construtivas pois as considero um olhar dos mestres sobre nós.”

SORRIAM! ESTAMOS FILMANDO.

Quando as duas faces da mente
são vistas de fora para dentro,
descortina-se um poder latente;
este,no qual agora me concentro.

Há uma que  quando dormente,
uns nove anos ou novecentos
passam como alísios ventos
no passado, futuro e presente.

A objetiva , na subjetiva descansa;
o consciente no sub procura
a música que orquestra a dança.

É preciso ser visto pela fechadura,
pelo olho d’um mestre que lança
uma rajada de luz que perdura.

Sérgio Brandão, 04.01.2013.



quarta-feira, 20 de novembro de 2013

A ROSA DE SARON

Uma história mal contada é
o que faz a gente duvidar
de quem vai pra missa com fé
e duvida do bem com olhar.

Ah, se vocês soubessem do ar
que mostra até dedo do pé,
mais respeito teriam à este par
de olhos que lêem Malarmé.

Uma leitura guia a visão humana
ao verdadeiro e ao falso dom
que alguém divulga que emana.

Se olharmos para o que é bom,
a malícia, como que densa lama,
suja pétalas na Rosa de Saron.

Sérgio Brandão, 20.11.2012.